Brasília, a cidade feita para os carros e perfeita para as bikes

bsb bikeBrasília é praticamente plana, tem espaço de sobra, ciclovias sem trânsito, clima ameno e muitas árvores. Para quem veio de Porto Alegre, onde cada trajeto de bicicleta era uma aventura perigosa diante da disputa de espaço (ou de ego?), a Capital Federal é o paraíso. Esse foi um entre tantos fatores que influenciaram minha decisão de morar aqui. O plano piloto, sobretudo, reúne todas as condições necessárias para se locomover de bicicleta.

Se é assim, por que os ciclistas são tão raros por aqui? Creio que a cidade tem as condições físicas, mas falta o principal: a cultura da bike nunca foi estimulada. São poucos os que estão dispostos a trocar o conforto do ar condicionado do carro e da academia pelo suor na testa, alguns quilos a menos e pernas mais torneadas.

Moro aqui há poucos meses, não tenho carro e faço o maior esforço do mundo para nunca precisar do pior sistema de transporte público do País. Assim, só me resta — viva! — pedalar. E tenho pedalado muito. Diariamente faço um percurso de 8 quilômetros de casa ao trabalho (e vice-versa) pela Asa Sul. A ciclovia está sempre vazia e fica entre as árvores, causando aquela sensação de que você está pedalando no jardim do seu condomínio.

Algum lugar da Asa Norte

Com minha curta experiência de ‘bicicleteiro’ em Brasília, tenho me dedicado a converter motoristas em ciclistas. Missão difícil. Sempre começo a argumentação pelos fatores que tornam a pedalada brasiliense algo agradável e, aos poucos, vou incluindo os alertas necessários. A seguir, alguns detalhes que você talvez não saiba.

A cidade é praticamente plana.Dificilmente você vai precisar trocar a marcha da bike ou pedalar em pé para vencer uma subida. Suas pernas não vão ficar bambas depois de alguns quilômetros e é possível, inclusive, vencer grandes distâncias só no embalo de uma leve descida.

Diferente de outras cidades, aqui tem espaço de sobra. E isso é o mais bacana. Não tem nada melhor do que pedalar vendo o horizonte, sem disputar espaço com gente ou outros veículos. Você pode fazer a coreografia da música que está ouvindo enquanto pedala sem correr o risco de atropelar alguém ou passar por ridículo — sim, eu faço isso.

O clima é outro ponto favorável. Ok, vocês podem dizer que esse texto foi escrito por alguém que só pedalou durante a seca e no inverno. Aceito o argumento, mas acho que não prejudica minha argumentação. Aqui não faz frio nem calor, é sempre aquela coisa… Se esfriar um pouco, evita o suor. Se esquentar, tem as ciclovias entre as árvores. Sim, você pedala na sombra em 90% do plano piloto.

Conhecer Brasília de bicicleta permite se aproximar mais da arte dos gênios da arquitetura. Contornar uma tesourinha, passar ao lado do Museu Nacional, andar pela Esplanada dos Ministérios ou desbravar o gigante Parque da Cidade são programas que ficam bem mais intensos a bordo de um “camelo”.

Não recomendo andar entre os veículos nas vias movimentadas como a L2 e a W3. E nem precisa. Na L2, via Leste que vai de ponta a ponta das asas, há uma bonita e livre ciclovia paralela. Nas demais, há espaço sobrando para pedalar sem necessidade de disputar espaço com os motorizados ou com os raros pedestres.

Cuidado com os ônibus. Eles costumam não ser amigáveis com ciclistas — algo que não chega a ser novidade para quem já tomou esporro de motorista de ônibus até em Londres. Podem jogar aquela joça na sua frente apenas para encostar na parada antes de você passar. Apesar dos pardais e dos controladores de velocidade dos veículos, os motoristas sempre andam no limite. É perceptível a diferença de velocidade e agressividade dos ônibus para os demais veículos.

Muitos motoristas particulares dirigem porque são obrigados pelas circunstâncias e, consequentemente, são muito ruins de roda — como eles chamam quem dirige mal. Então, cuidado também com os carros, mesmo os que andam devagar. O perigo, nesse caso, não é a disputa por espaço, mas sim a falta de perícia na direção.

Esplanada dos Ministérios

Brasília tem vocação para ser a capital brasileira da bicicleta. Aqui tem espaço e beleza de fazer inveja em qualquer cidade europeia. Quem é Amsterdam na fila do pão quando você pode pedalar sob o céu mais lindo do mundo?

É uma pena que, até então, ela está desperdiçando sua vocação. Recentemente o governador Rollemberg — carinhosamente chamado de Rolla — foi trabalhar pedalando e constatou que Brasília ainda precisa melhorar muito para ser a cidade das bicicletas.

Apesar das dificuldades, não há no Brasil cidade mais segura e agradável para os ‘bicicleteiros’. Lúcio Costa pode não ter pensado nisso quando projetou a Capital Federal, mas a cidade que foi feita para os carros é perfeita para as bicicletas. O desafio agora não é estrutural. É cultural. E pé no pedal.

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