Cultura da bicicleta enfrentou resistência até em Amsterdam

“Estacionamento” de bikes em Amsterdam

Não está sendo fácil a vida do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, desde que resolveu desengavetar o plano de tornar a megalópole um lugar mais simpático aos ciclistas. A construção de faixas exclusivas para bicicletas está inflamando muita gente. Trata-se, na verdade, de uma guerra egoísta e atrasada.

Em geral, os críticos da rua e da imprensa usam os mesmos argumentos para justificar o que, na verdade, é ciúmes dos ciclistas. “A Prefeitura está expulsado os carros da cidade”, dizem uns. “Não tem ninguém nessa ciclovia”, afirmam outros. “O trânsito está pior”, no entanto, continua sendo o pseudo-argumento mais utilizado.

Em recente entrevista, Haddad teve que explicar o óbvio aos jornalistas que repetiam o discurso comum da boca dos taxistas. Quando um dos entrevistadores “argumentou” que as ciclofaixas estão vazias, o prefeito foi obrigado a ser didático como um professor do primário: primeiro você precisa criar as condições para o uso seguro e, depois, a cultura da bicicleta como meio de transporte vai aparecer.

Como dizem no Sul, muda o gaiteiro, mas o baile segue o mesmo. Foi exatamente essa história que ouvi de holandeses, alemães e parisienses em recente viagem de férias. Impressionado com a praticidade do sistema de ciclofaixas e com o respeito que os pedestres e motoristas dessas cidades têm com os ciclistas, questionei moradores mais antigos sobre o início de tudo. Ouvi que nem sempre foi assim, que no início houve resistência e que só o tempo tornou o uso da bicicleta algo comum.

Inclusive em Amsterdam, o paraíso dos ciclistas. A cidade holandesa, aliás, chega a ser exagerada (a foto que ilustra o post é do estacionamento de bikes da estação central da cidade). Há bicicletas por todo o lado e todo mundo para para o ciclista passar, inclusive os carros. Nas vias de alta velocidade, a ciclovia é separada, criando um ambiente seguro. Pedalei, por baixo, uns 20 quilômetros por dia.

Em Berlim, as ciclovias ganharam o debochado apelido de “nova faixa da morte”, em referência ao espaço que existia entre o muro de Berlim e que era mortal para quem tentava cruzar para o outro lado. “Se você ouvir a campainha, fique atento. Você pode ser fortemente punido… Com um xingamento em alemão”, brincou o guia de um tour.

A julgar pelas reações em São Paulo e outras cidades brasileiras (Porto Alegre inclusa) com o início da instalação de faixas exclusivas para bicicletas, ainda teremos muito trabalho até conquistarmos um ambiente saudável para o ciclista. O trabalho mais pesado, no entanto, não será físico, mas sim psicológico e intelectual. Será difícil convencer a classe média egoísta que vê a compra de um carro como sinônimo de status que usar bicicleta é uma boa ideia.

Mas precisamos evoluir mais, educando os motoristas, os pedestres e também os ciclistas. Em geral, os usuários de bicicletas no Brasil costumam ignorar as faixas de pedestres e os sinais vermelhos que valem para os carros e para eles. Isso também precisa mudar. Para ser respeitado é necessário respeitar. Hoje, o que acontece é uma reação em cadeia da falta de gentileza: o motorista ignora o ciclista, o ciclista ignora o pedestre.

Katia, a cantora de um único hit, já avisava: não está sendo fácil. E ninguém disse que seria. Agora é pé no pedal, mão na consciência e vamos à luta por cidades mais gentis com todos.

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