Espanha: a ascensão do Ciudadanos e a queda do Podemos

Albert Rivera x Pablo Iglesias. Foto: https://twitter.com/podciud
Albert Rivera x Pablo Iglesias. Foto: https://twitter.com/podciud

Desde as eleições europeias de maio de 2014, a Espanha vive a expectativa de ter uma terceira opção após uma vida política presa no bipartidarismo PP-PSOE. O Podemos surgiu disposto a responder questões colocadas por movimentos como o 15M e sobre as quais os polítocs os partidos tradicionais geralmente dão respostas escorregadias. Essas respostas tão claras arrebataram a juventude que não se via representada (“eles não nos representam”, lembram?) e, assim, o Podemos obteve votação considerada um êxito naquele pleito.

Com o êxito, veio a fama. Pablo Iglesias, o líder do partido, passou a aparecer constantemente em programas de televisão, especialmente em debates e entrevistas. Suas intervenções desconcertantes fizeram sucesso na internet em pequenos vídeos. Iglesias já falava, desde então, como candidato ao Governo. Aparecer na mídia que tanto criticam, dizem, faz parte da estratégia do partido para se tornar conhecido. Nas redes sociais, onde nasceu e vive até hoje, o Podemos deixou para trás os tradicionais partidos espanhóis logo após o seu surgimento. Nas redes eles são imbatíveis, mas esse é um assunto para outro momento. Voltamos às sondagens:

Para surpresa geral, o crescimento não parou. O Podemos chegou a liderarmuitas pesquisas para as eleições gerais deste ano feitas entre o final de 2014 e o início de 2015. Foi mais ou menos por essa época que um pequeno partido da Catalunha começou a ampliar sua presença em território nacional e passou a chamar a atenção. O Ciudadanos experimentou um crescimento similar ao do Podemos depois de renegar o tradicional “espectro político” e tentar captar a simpatia daquele famoso ambiente que se diz apartidário — mas quase sempre está mais à direita — definindo-se como centro.

A posição do Ciudadanos no espectro político é motivo de debate até a atualidade. Para alguns analistas as propostas do partido se aproximam da direita, pois defendem o liberalismo e são aliados de grandes empresários e, ao mesmo tempo, da esquerda em pautas como casamento igualitário e aborto. Foi ao emergir como opção que combina essas duas vias que o Ciudadanos capitaneou muitos votos que eram do Podemos e, assim, o partido do 15M nunca mais liderou pesquisas e vem caindo nas pesquisas.

Podemos e Ciudadanos aparecem empatados na última sondagem para as eleições do dia 20 de dezembro. Pela primeira vez, aliás, uma pesquisa coloca o partido liderado pelo jovem advogado catalão Albert Rivera na frente do fenômeno político comandado por Pablo Iglesias. Pelos dados da Simple Lógica, o Ciudadanos tem 17,1% e o Podemos tem 16,5% das intenções de voto. Levantamentos anteriores já colocavam as duas forças políticas da juventude espanhola muito próximas — em alguns casos já empatados se considerar a margem de erro. No entanto, a confirmação numérica da vantagem dos jovens da direita progressista sobre os revolucionários barbudos ascende o sinal vermelho no Podemos. Para quem chegou a sonhar com a presidência de Governo e estava, até o início deste ano, consolidado como terceira via, a queda nas pesquisas é um sinal de que alguma coisa não saiu conforme o planejado.

Qual foi o erro do Podemos? Impossível precisar. Talvez o partido não tenha cometido grandes equívocos, mas enfrentou um adversário politicamente astuto e com um longo campo de votos indefinidos a explorar. Mas talvez erros tenham acontecido e enfraquecido a crença dos jovens sem resposta ao grupo. A experiência do Syriza na Grécia, que ganhou fôlego com discurso e estratégia similares ao Podemos, pode ter influenciado. Ou asposições confusas dos porta-vozes do partido espanhol quando Alexis Tsipras recuou podem ter causado danos. Os eleitores de forças como o Podemos ou o Syriza costumam valorizar coisas básicas como a coerência, algo que não encontram nos grandes partidos políticos. Mas basta uma fraqueza discursiva plantar dúvidas na cabeça do jovem eleitor para ele imediatamente observar ao redor buscando outras opções. Nesse momento, muitos podem ter visto no Ciudadanos uma aposta válida.

Sem radicalismos na economia, fonte do medo de boa parte dos eleitores que sofrem com a austeridade na Espanha, e com ousadia nas pautas sociais que causam polêmica na atualidade, o Ciudadanos pode ter encontrado a fórmula para conquistar o voto dos indecisos. O Podemos segue convictamente ligado à esquerda e, quando há um esboço de fracasso de seus parceiros, vê seus votos menos politizados indo pelo ralo, ou quando deixa escapar um traço de incongruência, vê seus eleitores mais politizados indo pelo mesmo caminho. O partido nasceu afirmando que podemos fazer diferente, mas um ano depois já deu sinais que nos causam um déjà vupolítico. Podemos também continuar fazendo diferente?

Texto publicado originalmente no Medium em 14/09/2015.

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