Por que a estratégia de Trump está dando muito certo?

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Surgiu falando tantos absurdos que foi apontado como maluco. Construir um muro na fronteira com o México? Fechar os Estados Unidos para a imigração de muçulmanos? Quem seria tão doido de propor medidas como essas para ganhar uma eleição? Donald Trump foi e isso pode estar relacionado muito mais a uma estratégia cuidadosamente pensada do que a reais convicções da direita norte-americana.

Recapitulando. Ele começou a campanha sendo o empresário rico de direita sem noção que, aos olhos dos incrédulos, seria apenas mais um doido com ideias doidas na disputa pela Casa Branca. Falou tantas doidices que assustou até seus partidários. Venceu as primárias, tornou-se oficialmente o candidato do Partido Republicano e, agora, tem reais chances de ser o próximo presidente. Mas o que está por trás da estratégia de Donald Trump para chegar à presidência?

A entrevista que o candidato republicano deu ao comediante Jimmy Fallon no programa The Tonight Show releva muito sobre a tática adotada pelo possível (provável?) futuro presidente dos Estados Unidos. Trump permitiu que o apresentador bagunçasse o seu cabelo e esse foi apenas um dos pontos altos da entrevista – para ele. Durante toda a conversa, o empresário parecia outra pessoa. Bem-humorado, sorriso no rosto e soltando frases de efeito bem mais leves do que as que costumava falar no início da campanha.

Quando Fallon comentou que o candidato dava muito material para fazer humor por causa de suas declarações polêmicas, Trump disse que está tentando fazer exatamente o contrário. O apresentador, talvez intencionalmente, revelou a partir da mudança do tom de voz do candidato a estratégia adotada. Fallon comentou que teve que mudar sua imitação de Trump, pois no início ele falava com voz fraca e rouca, depois passou a um tom agressivo e, atualmente, adota um tom zen.

Mas o que tudo isso tem a ver com a tática de campanha? Tudo. Inicialmente, Donald Trump adotou a tática de chamar toda a atenção da mídia para si, no bom e velho “fale bem ou fale mal, mas fale de mim”, como o estudante que grita mais alto na sala de aula e acaba sendo alvo de todos os olhares. Ele precisava disso para fixar seu nome como real pré-candidato, garantir os votos mais conservadores e sufocar midiaticamente os seus opositores republicanos. E ele conseguiu. Basta que o leitor pense, agora, nos nomes dos demais pré-candidatos do Partido Republicano… Pensou? Lembrou de algum? Provavelmente não. Isso significa que a primeira fase da tática de campanha de Trump deu muito certo.

Mas um presidente da maior potência mundial não pode ser considerado doido e Trump sabe disso. Aí entramos na segunda fase da estratégia de campanha: se tornar um pouco mais próximo da realidade, menos absurdo, mais humano e menos caricato. É o que o candidato está fazendo neste momento modificando o tom de voz para algo mais light, admitindo erros como aceitar que Barack Obama nasceu nos Estados Unidos e evitando causar polêmica com ideias absurdas como o próprio revelou ao comediante do The Tonight Show.

Assim, segundo o manual da estratégia republicana, Trump pode conquistar os votos dos eleitores médio. À medida em que fica mais exposto na mídia sem precisar fazer nenhum esforço para isso, pois agora são só Hillary e ele, fica também menos surreal. Por que isso? Porque é agora que os eleitores médios vão realmente prestar atenção nos candidatos e escolher o melhor (menos pior?) para votar em novembro.

Trump foi o rebelde doido que gritava qualquer coisa para chamar a atenção e agora está se tornando um nice guy que come fast-food e venceu na vida. O estereótipo que muitos norte-americanos querem como presidente. Estrategicamente, se estou certo na minha avaliação, ele foi um gênio. Ganhando ou não, Trump já pode se considerar vencedor apenas pelo fato de ter sido considerado seriamente por metade dos eleitores. O comediante Jimmy Fallon, inclusive, brincou sobre isso na entrevista recente quando questionou o candidato dizendo que “isso está se tornando real” e se ele tinha certeza que queria continuar. Ele vai e pode vencer.

O fechamento do país à imigração muçulmana e o muro na fronteira com o México são propostas que dificilmente voltarão à pauta da agenda de campanha de Trump porque, agora, ele não precisa mais chamar a atenção. Precisa ser real. E assim, para o bem ou para o mal, Donald Trump está cada vez mais perto de se tornar o próximo presidente dos Estados Unidos.

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